Bancos veem piora do crédito e apertam empréstimos com alta de calotes

O cenário não está favorável para quem busca ou precisa pagar um empréstimo, e a expectativa é de que não melhore tão cedo. Essa é a avaliação de economistas, analistas e dos próprios bancos privados para o restante de 2026, diante de juros mais altos que o esperado e do elevado comprometimento da renda das famílias brasileiras.
Milton Maluhy, presidente do Itaú Unibanco, afirmou durante teleconferência com analistas que o ciclo do crédito será desafiador e que há um excesso de crédito dado pelo mercado. O executivo disse que prefere abrir mão de crescimento e participação de mercado a correr o risco de lidar com a inadimplência depois.
O Bradesco também sinalizou cautela. O presidente Marcelo Noronha afirmou que o banco está reduzindo o crédito pessoal e focando em operações com garantia.
Essa postura se reflete nas reservas para perdas com calotes feitas pelos três maiores bancos privados do país no segundo trimestre. Itaú Unibanco, Bradesco e Santander provisionaram juntos R$ 28,7 bilhões, uma alta de 12,4% na comparação com o mesmo período de 2025. A carteira de crédito subiu 9,4%, para R$ 3,37 trilhões.
Em maio, a inadimplência geral do sistema financeiro atingiu o pico da série histórica do Banco Central, iniciada em 2011, com 4,74% do crédito em atraso há mais de 90 dias. Em junho, com o início do Desenrola 2.0, o indicador caiu para 4,68%, ainda acima da média histórica de 3,29%.
Segundo Flávio Ataliba, pesquisador do FGV IBRE, o percentual reflete a Selic a 14% e a precificação de juros futuros altos, devido à percepção de risco fiscal. A inflação dos alimentos também é um ponto de atenção, comprometendo mais de 23% do orçamento das famílias que ganham até um salário mínimo.
O endividamento das famílias com os bancos chegou a 49,93% em janeiro, o maior valor da série iniciada em 2005. Apesar do desemprego na mínima, a tendência é de desaceleração da atividade econômica por causa dos juros altos.
A cautela das instituições se manifesta na restrição de crédito para consumidores de baixa renda e na preferência por empréstimos com garantia, como consignado CLT, financiamento imobiliário e de veículos. O Santander teve o pior balanço entre os pares no segundo trimestre, com lucro abaixo do esperado devido ao maior gasto com provisões. O Itaú revisou para baixo a projeção de crescimento da receita com serviços e seguros para 2026, de 5% a 9% para 2% a 5%. O Bradesco viu o custo de crédito dos clientes subir para 5,9%, ante 5,5% no início do ano, mas manteve a previsão de expansão da carteira entre 8,5% e 10,5%.
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