Eleições no DF: seis candidatos disputam o Buriti

Com o fim do prazo para as convenções partidárias, o Distrito Federal tem o cenário eleitoral definido para a disputa ao governo. Seis candidatos foram lançados pelas grandes siglas. Entre os nomes de destaque estão a governadora Celina Leão (PP) e o ex-governador José Roberto Arruda (PSD). No campo progressista, o PT lançou Leandro Grass e o PSB aposta em Ricardo Cappelli. A centro-direita também conta com a deputada distrital Paula Belmonte (PSDB) e Kiko Caputo (Novo).
Apesar das candidaturas, a disputa ainda não está totalmente definida. Fatores como a crise do Banco Regional de Brasília (BRB), os imbróglios jurídicos de candidatos e o racha no campo progressista devem pesar nos próximos meses e alterar a percepção do eleitorado brasiliense.
Celina pontua bem nas pesquisas e inicia a disputa com vantagens por já ocupar o cargo. Ela tem maior visibilidade, pode apresentar as realizações administrativas desde que assumiu e conta com o apoio da estrutura política construída durante os mandatos do antecessor, Ibaneis Rocha (MDB). Por outro lado, herdou o desgaste da gestão, especialmente na crise do BRB.
Arruda entra com capital eleitoral expressivo e identidade política consolidada. A candidatura aparece como alternativa no campo conservador e pode ser um dos principais concorrentes de Celina, impedindo que a chefe do Executivo distrital concentre todos os votos da centro-direita e direita. O ex-governador, no entanto, enfrenta uma situação jurídica complicada.
No campo progressista, há um racha. O PT decidiu lançar Grass, que aparece como o candidato mais competitivo da esquerda. Ele enfrenta a concorrência de Cappelli, que iniciou o trabalho de campanha antes de consolidar a candidatura. No meio disso, Caputo e Belmonte se apresentam como alternativas viáveis à polarização.
A crise no BRB
O BRB enfrenta uma crise financeira e de confiabilidade após a revelação das fraudes investigadas pela Operação Compliance Zero, da Polícia Federal. As investigações apontam irregularidades em operações com o Banco Master, que resultaram em prejuízo estimado em cerca de R$ 12 bilhões para a instituição. O banco ainda não divulgou os balanços financeiros de 2025, documentos essenciais para avaliar o rombo.
O prazo para a divulgação do balanço anual venceu em 31 de março. O BRB informou que o fechamento das demonstrações dependia da conclusão de auditorias e de tratativas com os reguladores. Em uma tentativa de recuperar o banco, Celina fechou um acordo no Supremo Tribunal Federal (STF) que prevê uma operação de crédito de R$ 6,6 bilhões junto ao Fundo Garantidor de Créditos (FGC). O acordo, porém, ainda não teve resultados efetivos e não há previsão de quando os recursos devem entrar no caixa. Essa situação empurra o BRB para uma possível liquidação.
Na avaliação do mestre em Ciências Políticas Prof. Dr. Gustavo Javier Castro, a condição do banco deve permear as discussões durante as campanhas. Caso o acordo não seja concretizado antes das eleições, Celina será pressionada a explicar por que uma solução anunciada e homologada ainda não produziu resultados. Isso pode enfraquecer um dos principais argumentos de sua candidatura: o da continuidade administrativa e da capacidade de gestão.
Em relação a uma possível liquidação, as consequências seriam mais graves. “O BRB não é percebido apenas como uma instituição financeira, mas como um patrimônio econômico e simbólico do Distrito Federal. Uma crise extrema poderia produzir insegurança entre clientes, servidores, empresários e contribuintes, além de levantar questionamentos sobre a eventual utilização de recursos públicos para cobrir prejuízos”, explica.
Diante desse cenário, Castro defende que seria plausível uma queda nas intenções de voto de Celina. O impacto depende de outros elementos, como a proximidade do episódio em relação à eleição, a existência ou não de perdas para correntistas e para o Tesouro distrital, o grau de responsabilidade atribuído ao governo e a capacidade da oposição de converter a crise em responsabilização política.
“Também seria importante observar como Celina reagiria. Uma atuação transparente, com divulgação de dados e identificação clara das responsabilidades, poderia limitar os danos. Uma postura defensiva ou marcada pela demora na prestação de informações tenderia a ampliar o desgaste. Portanto, a crise do BRB é provavelmente o principal ponto de vulnerabilidade de sua candidatura, embora seus efeitos eleitorais ainda não possam ser medidos de forma definitiva”, argumenta.
Arruda e a Lei da Ficha Limpa
Arruda enfrenta uma situação delicada. O ex-governador estava inelegível desde 2014 em decorrência de um processo de improbidade administrativa ligado à Operação Caixa de Pandora, ocorrida em 2009. Na teoria, ele não poderia concorrer ao pleito em 2026. No entanto, após as mudanças aprovadas na Lei da Ficha Limpa, o tempo de perda dos direitos políticos seria reduzido. O teto de inelegibilidade para condenações em múltiplos processos passou a ser de oito anos a partir da condenação em segundo grau.
Com as alterações, o STF tem analisado os casos dos políticos enquadrados na norma. Até o final de julho, o julgamento estava suspenso depois de pedido de vista do ministro Gilmar Mendes. A relatora, ministra Cármen Lúcia, e o ministro Luiz Fux votaram pela inconstitucionalidade de dispositivos centrais da reforma. A legislação atual favorece a interpretação de que Arruda recuperou a elegibilidade, mas uma decisão da Corte em sentido contrário pode comprometer a candidatura.
Segundo Castro, uma eventual retirada de Arruda produziria uma reconfiguração no cenário político. “Ele não é apenas mais um candidato: representa uma parcela relevante do eleitorado conservador e reúne votos ligados à memória de suas administrações, à sua presença histórica na política local e à oposição ao grupo atualmente instalado no Palácio do Buriti”, avalia.
Do ponto de vista eleitoral, isso pode ser um bom indicativo para Celina, pois ela seria a principal beneficiária da ausência de Arruda. Parte considerável dos eleitores do ex-governador tenderiam a migrar os votos para a governadora, em razão da proximidade ideológica. Essa transferência, porém, não seria automática nem integral. Parte dos eleitores de Arruda pode interpretar a exclusão como decisão judicial injusta e adotar postura de protesto.
“Esses eleitores poderiam votar em outro candidato conservador, anular o voto ou mesmo se afastar do processo eleitoral. O comportamento de Arruda também seria decisivo: um apoio explícito a outro nome poderia orientar parte de seu eleitorado, enquanto uma posição de neutralidade ou confronto ampliaria a dispersão”, analisa. Esse cenário também pode aumentar a importância da disputa pela segunda colocação, especialmente para Grass.
Racha na esquerda
Há um impasse no campo progressista no DF. A manutenção das candidaturas de Grass e Cappelli revela dificuldade de unidade na esquerda. Ambos disputam uma faixa semelhante do eleitorado e procuram vincular suas candidaturas ao projeto nacional de centro-esquerda, mas partem de posições eleitorais distintas.
“A divisão apresenta riscos evidentes. O principal deles é impedir que o campo progressista concentre votos suficientes para chegar ao segundo turno. Em uma eleição na qual Celina e Arruda, caso este possa concorrer, ocupam as primeiras posições, a fragmentação pode fazer com que os candidatos progressistas disputem entre si um eleitorado limitado”, argumenta Castro.
Há também efeitos sobre as estruturas das campanhas. Duas candidaturas significam divisão de recursos, tempo de propaganda, apoios partidários e palanques nacionais. A disputa interna pode dificultar a construção de uma narrativa comum sobre temas como transporte, saúde, desenvolvimento urbano, desigualdade territorial e a própria crise do BRB.
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