Desde a pandemia, a aposentada Clarice Almeida, 72, passou a enxergar sua coleção de joias de ouro de um jeito diferente. Endividada com cartões de crédito, anéis, pulseiras e correntes viraram uma tábua de salvação. Em vez de vendê-los, ela encontrou outra saída: penhorá-los na Caixa Econômica Federal, única instituição financeira do país autorizada a ofertar essa modalidade de crédito.
“Eu estava cheia de dívidas, não conseguia pagar minhas contas. Mas eu sempre tive bastante joia, e uma amiga minha penhora lá na Caixa aqui de Osasco [região metropolitana de São Paulo] e falou que era uma boa, que o juro era pouco. Penhorei e gostei também, o juro é bem mais baixo mesmo”, disse ela em ligação por vídeo.
O penhor funciona como um empréstimo com garantia. O cliente leva à agência um bem de valor — joias, pratarias, relógios ou canetas adornadas com metais preciosos — e um especialista faz a avaliação. O crédito disponibilizado pela Caixa pode chegar a até 100% do valor da peça, e o dinheiro sai na hora. Em troca, o cliente paga juros que rondam 2,19% ao mês, em contratos de até seis meses e passíveis de renovação. Os bens ficam guardados no cofre da Caixa até a quitação da dívida e, se o contrato não for pago integralmente ou renovado, vão a leilão.
No acumulado do último ano, o ouro avançou mais de 60% e renovou recordes históricos em sequência. Em janeiro, chegou a ser cotado a US$ 5.600 por onça. “Em reais, o ouro à vista chegou à máxima de R$ 900 por grama”, diz Mauriciano Cavalcante, especialista da Ourominas. De lá para cá, afetada pelo conflito no Oriente Médio, a cotação caiu para US$ 4.712 por onça. “Mas a tendência ainda é de alta a curto prazo, podendo atingir novamente os patamares recordes anteriores”, afirma Cavalcante. O metal precioso é visto como reserva de valor em momentos de instabilidade econômica e geopolítica.
A ascensão começou no fim de 2022, quando a Guerra da Ucrânia se intensificou e culminou no confisco das reservas internacionais da Rússia. No ano passado, a política comercial de Donald Trump fez o ouro mudar de status: de porto seguro para ativo indispensável nas carteiras. O choque do tarifaço abalou a confiança no dólar e nos títulos americanos. O ouro galgou de US$ 3.343 por onça em 1º de abril para o pico de US$ 5.600.
Com o metal mais valorizado, as joias valem mais — e a procura pelo penhor disparou. Segundo a Caixa, a carteira da modalidade encerrou 2025 com saldo de R$ 3,2 bilhões, crescimento de 31,24% em relação ao ano anterior. A instituição diz que a valorização do ouro é o principal motivo. “Como o ouro subiu bastante, muitos clientes passaram a ter um patrimônio relevante parado nas gavetas de casa”, diz Gustavo Trotta, sócio da Valor Investimentos. “A alta do ouro permite que o cliente pegue mais dinheiro com o mesmo bem como garantia.”
Há outro fator em jogo. O endividamento das famílias atingiu o patamar de 80,4% da população, recorde na série histórica da pesquisa da CNC (Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo). A inadimplência também subiu, afetando 29,6% das famílias endividadas, impulsionada pela taxa Selic no maior patamar em quase duas décadas. Hoje em 14,75% ao ano, a Selic pauta as taxas de juros do mercado, e é aí que o penhor ganha espaço. “Ele tende a ser mais barato que as demais linhas tradicionais”, diz Trotta.
Há outro atrativo: ao contrário de um empréstimo convencional, o penhor não exige análise de crédito minuciosa. O bem dado como garantia já é suficiente. “Ele acaba sendo uma porta de entrada para pessoas com nome negativado ou dificuldade de aprovação em outras linhas”, afirma o especialista. Por esse motivo, porém, o penhor pode ser um indicativo silencioso de maior endividamento. “Pode ser um sinal de que as famílias estão recorrendo a alternativas para gerar liquidez”, explica Trotta.
Comparativamente, o juro de 2,19% ao mês do penhor perde para as médias do consignado público e do vinculado ao INSS, de 2,11% e 1,76% ao mês, respectivamente, segundo dados do Banco Central. No caso do consignado privado, a média é de 3,57% ao mês. Para servidores públicos, diz Marcos Praça, diretor de análise da ZERO Markets Brasil, o consignado segue sendo uma das melhores opções. “A limitação é a impossibilidade de renovar o contrato”, avalia ele.

