Bem-vindo a Marte: Política, Cultura Pop e Ciência Estranha na América dos Anos 50

    O livro “Bem-vindo a Marte”, escrito por Ken Hollings e com prefácio de Erik Davis, explora a história cultural dos Estados Unidos a partir de 1947. O autor começa com a morte de Aleister Crowley, uma figura importante no ocultismo, e o surgimento da indústria militar americana. A partir disso, ele analisa a década de 1950 em detalhes, mostrando como diferentes fatores se entrelaçam durante esse período.

    Ao longo do livro, Hollings apresenta uma mistura de cultura de consumo, planos do governo, relatos de objetos voadores não identificados (OVNIs), inovações farmacêuticas e religiões alternativas. Essa análise se dá no contexto do início da Guerra Fria, um momento em que a sociedade estava passando por grandes transformações.

    Um dos pontos fortes do trabalho é a conexão entre a cultura popular e as experiências científicas. Hollings faz comparações interessantes entre resumos de filmes B e as verdadeiras pesquisas realizadas com seres humanos, mostrando como essas narrativas se refletem e se iluminam mutuamente.

    O estilo de escrita de Ken Hollings é cativante e, em alguns momentos, bem-humorado. Ele discute temas como a relação entre o estranho e o familiar, utilizando a ideia de que os subúrbios representam uma colonização bem-sucedida de um universo hostil. Essa perspectiva mostra como a sociedade estava se moldando diante das novas realidades que surgiam.

    Um dos conceitos abordados no livro é a abordagem cibernética do comportamento humano em sistemas de controle. Hollings discute como o controle social foi descentralizado por meio da simulação e da expansão urbana, levando à criação de novos ambientes sensoriais. Esse tema é relevante, pois revela como as pessoas estavam se adaptando a um mundo em rápida mudança.

    Cada capítulo do livro é acompanhado por uma ilustração em preto e branco. Essas imagens incluem capas de revistas pulp, anúncios de computadores UNIVAC, pôsteres de filmes de ficção científica e até diagramas de estudos científicos sobre LSD. Esses elementos visuais ajudam a contextualizar o período e a tornar a leitura mais envolvente. Além disso, há um índice útil que facilita a consulta a lugares, pessoas e eventos mencionados.

    Hollings também aborda os padrões que já eram visíveis na cultura americana da época e que se relacionam com o “estranho” que se tornaria mais comum posteriormente. Ele observa que a cultura popular e o esforço científico eram moldados pelas mesmas forças sociais. Não se trata apenas de uma influência mútua, mas sim do fato de que ambos surgem a partir de um conjunto de parâmetros sociais semelhantes.

    O autor traça limites epistemológicos que se tornaram claros nos Estados Unidos após a Segunda Guerra Mundial. A ideia é que um novo projeto cósmico estava sendo desenhado, no qual os seres humanos teriam um papel diferente, em face das mudanças tecnológicas e sociais que ocorreram durante a metade do século.

    O livro “Bem-vindo a Marte” nos convida a refletir sobre como esses desenvolvimentos influenciaram a cultura e a sociedade americana. Ele oferece uma visão abrangente da década de 1950, mostrando como eventos aparentemente distintos podem estar interconectados. Essa interligação entre cultura pop, ciência e política é essencial para entender o clima cultural da época. É um convite para pensar sobre os caminhos que a sociedade estava tomando e como isso moldou a história futura.

    Ao analisar as ideias discutidas por Hollings, fica claro que o livro não é apenas uma crônica dos anos 50, mas uma exploração das raízes de muitas questões que ainda são relevantes hoje. O autor nos faz pensar sobre o passado e como ele impactou nosso presente, ao mesmo tempo em que nos instiga a considerar como a cultura evolui constantemente diante das mudanças sociais.

    Por fim, “Bem-vindo a Marte” se propõe a ser um retrato da era em que vivemos e dos desafios e ideias que surgiram. Essa obra é um convite para entendermos melhor o nosso contexto histórico e as influências que moldam nossa percepção do mundo. É um diferencial importante ver como o passado ainda reverbera em nossa realidade, destacando a interseção entre a ciência, a cultura e a política. A leitura é enriquecedora e proporciona um entendimento mais profundo sobre um período que ainda influencia o presente.

    Share.

    Giselle Wagner é formada em jornalismo pela Universidade Santa Úrsula. Trabalhou como estagiária na rádio Rio de Janeiro. Depois, foi editora chefe do Notícia da Manhã, onde cobria assuntos voltados à política brasileira.